



Teresa viu-se pela última vez ao espelho. Estava deslumbrante. O vestido branco, curto, realçava na perfeição o bronzeado perfeito que contrastava com os longos cabelos loiros. Pegou na carteira e saiu de casa a correr tão depressa quanto os saltos, altíssimos, lhe permitiam. Já estava atrasada e não queria causar má impressão a Pedro que, a esta hora, já a devia esperar no restaurante. Chamou um táxi que passava na altura. "Não levando carro, Pedro teria que a trazer a casa", pensou. "Funcionava sempre".
Quando entrou no restaurante, Teresa sentiu todos os olhares pousarem nela. De admiração ou inveja, consoante se tratasse do sector masculino ou feminino. Pedro, numa mesa discreta, levantou-se com um sorriso e recebeu-a com um beijo no canto da boca. " Divina"murmurou-lhe ao ouvido.
Enquanto jantavam iam conversando de tudo e de nada, conversa de circunstância de um primeiro encontro. Quando o telemóvel de Teresa toca, Pedro franziu os lábios. Não gostava de telemóveis em restaurantes daquele tipo, para a próxima iriam a um local mais informal.
Percebendo, Teresa balbuciou uma desculpa enquanto Pedro recordava como, quando saía com Sofia, os telemóveis ficavam em casa. Depressa varreu esses pensamentos, olhando a cara assustada de Teresa.
"É do meu escritório", balbuciou assustada,"parece que houve um assalto e a directora foi baleada. Tenho que ir já para lá!"
João sentou-se ao volante do carro deixando para trás o hospital, a multidão e a cidade. Guiou em direcção ao mar, sem nenhum destino especial. O simples prazer de conduzir e o cheiro do mar faziam com que o stress acumulado durante a semana ficasse para trás.
Preocupado com Pedro, era dele a imagem que via enquanto o carro percorria paralelamente a linha do mar. Aquele tipo não anda nada bem, pensou. Nunca mais foi o mesmo... Quando deu por si, viu que percorria inconscientemente um caminho bem conhecido pelo qual já não passava há alguns anos. Deixou-se ir, até parar à porta de um pequeno bar de praia, encravado entre a rocha e a areia onde as ondas, no Inverno, salpicavam os vidros em dias ventosos. Mas agora era Verão e as janelas apenas reflectiam o azul do mar sempre frio daquela zona.
O bar, antigo refúgio, continuava como dantes; talvez a madeira das paredes estivesse mais fustigada pelo tempo. Frequentado apenas por quem sabia dar com ele, encontrava-se quase deserto àquela hora do dia. Apenas umas costumeiras bicicletas, um jipe coroado com duas pranchas de surf e um carro de matrícula italiana povoavam o exíguo estacionamento. Itália fê-lo pensar de novo em Pedro, contrariado.
Entrou e olhou para a mesa onde, anos antes, se reunia com o grupo de amigos tardes a fio. Estava ocupada por uma mulher sentada de costas para a porta . Fez um esgar de contrariedade (afinal aquela mesa seria sempre deles), imediatamente seguido de um ar de incredulidade. Reconheceria aqueles cabelos onde quer que fosse.
Dirigiu-se para a mesa e olhou a mulher nos olhos: Sofia? Que fazes aqui?